Clínica
O que o fisio confere antes de aplicar a bandagem
Os dois minutos antes de tirar o rolo da bolsa, e as horas em que a resposta certa é encaminhar.
A bandagem é a parte fácil. O que conta é o julgamento nos dois minutos anteriores, quando o profissional decide se a bandagem é mesmo a resposta certa. Este texto não substitui formação. Ele descreve o raciocínio, para que todo mundo na beira do campo entenda o que está vendo.
Primeira pergunta: precisa de exame de imagem?
As regras de decisão clínica existem para que o profissional possa descartar fratura sem pedir imagem para todo mundo. As regras de Ottawa para tornozelo têm sensibilidade muito alta, o que faz delas uma ferramenta de exclusão.1 Uma meta-análise recente confirma o mesmo padrão de alta sensibilidade e baixa especificidade.2 Leia com atenção. As regras dizem quando dá para deixar de se preocupar com fratura, com segurança. Elas não diagnosticam fratura.
O joelho tem sua própria regra validada.3 O mesmo vale para a coluna cervical, onde a Canadian C-spine rule e os critérios NEXUS foram comparados diretamente.4 Aplicar uma regra antes do exame de imagem também reduz custo e tempo de espera.5
Vá descendo a lista. Se não conseguir marcar um item, é ele que precisa ser resolvido antes de qualquer bandagem.
Depois: o que a pele está mostrando
A lesão de pele causada por adesivo médico tem um consenso próprio, atualizado depois de dez anos, que cobre avaliação da pele, fatores de risco e remoção sem trauma.10 As orientações práticas cobrem preparo da pele, aplicação sem tensão, películas de barreira e removedores de adesivo.11 O látex também importa. A distinção entre uma reação imediata por IgE à proteína do látex natural e uma reação tardia aos aceleradores da borracha é clinicamente importante para bandagem, pré-tape e spray adesivo.12 Infecções de pele e dermatoses em atletas são uma categoria à parte, e aí a resposta costuma ser não fazer bandagem por cima.13
Às vezes, a melhor coisa que um bom profissional faz com um rolo de bandagem é guardar de volta na bolsa.
A sequência de avaliação, e as diretrizes por trás dela
O consenso do International Ankle Consortium define uma sequência recomendada para a entorse lateral aguda de tornozelo: histórico, regras de decisão, palpação, teste de frouxidão ligamentar e capacidade de apoiar o peso, antes de qualquer intervenção.6 A diretriz de prática clínica da APTA define o que examinar, como graduar e qual grau de evidência está por trás de cada intervenção, incluindo órteses e bandagens.7 Para quadros da coluna, a referência é o protocolo internacional de sinais de alerta (red flags), que defende que esses sinais não sejam tratados como uma triagem de sim ou não.8
O que as evidências não sustentam. Faltam evidências de alta qualidade para a compressão em lesão aguda de tecidos moles do tornozelo.14 O tape elástico terapêutico não tem benefício clinicamente relevante em relação à aplicação simulada nos quadros musculoesqueléticos.15,17 Na bandagem rígida, os resultados sobre dor variam muito de um estudo para outro, e isso não sustenta nenhuma promessa.16
O consentimento não é formalidade. As orientações profissionais dizem que consentimento válido exige capacidade, vontade livre e informação suficiente, e que ele vale durante todo o atendimento, não só em um momento, com cuidados específicos para menores de dezesseis anos.18 Na beira do campo de uma escola, essa é a diferença entre cuidado e suposição.


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Fontes
- Bachmann LM, et al. (2003). Accuracy of Ottawa ankle rules to exclude fractures of the ankle and mid-foot: systematic review. BMJ. Link Alta sensibilidade, baixa especificidade. Descarta, não confirma.
- Gomes YE, et al. (2022). Diagnostic accuracy of the Ottawa ankle rule to exclude fractures in acute ankle injuries in adults. BMC Musculoskeletal Disorders. Link
- Sims JI, et al. (2020). Diagnostic accuracy of the Ottawa knee rule in adult acute knee injuries. European Radiology. Link
- Stiell IG, et al. (2003). The Canadian C-spine rule versus the NEXUS low-risk criteria in patients with trauma. New England Journal of Medicine. Link
- Anis AH, et al. (1995). Cost-effectiveness analysis of the Ottawa ankle rules. Annals of Emergency Medicine. Link
- Delahunt E, et al. (2018). Clinical assessment of acute lateral ankle sprain injuries (ROAST): 2019 consensus statement of the International Ankle Consortium. British Journal of Sports Medicine. Link
- Martin RL, et al. (2021). Ankle stability and movement coordination impairments: lateral ankle ligament sprains revision 2021. Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy. Link
- Finucane LM, et al. (2020). International framework for red flags for potential serious spinal pathologies. Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy. Link Sinais de alerta isolados têm baixa acurácia diagnóstica.
- Kaminski TW, et al. (2013). NATA position statement: conservative management and prevention of ankle sprains in athletes. Journal of Athletic Training. Link
- Barton A, et al. (2024). Medical adhesive-related skin injury at 10 years: an updated consensus. Journal of Wound, Ostomy and Continence Nursing. Link
- Hitchcock J, et al. (2021). Preventing medical adhesive-related skin injury. British Journal of Nursing. Link
- Cullinan P, et al. (2003). Latex allergy: a position paper of the British Society of Allergy and Clinical Immunology. Clinical and Experimental Allergy. Link
- Zinder SM, et al. (2010). NATA position statement: skin diseases. Journal of Athletic Training. Link
- Hansrani V, et al. (2015). The role of compression in the management of soft tissue ankle injuries: a systematic review. European Journal of Orthopaedic Surgery and Traumatology. Link Evidências insuficientes para compressão de rotina.
- Parreira PCS, et al. (2014). Current evidence does not support the use of Kinesio Taping in clinical practice. Journal of Physiotherapy. Link Resultado negativo.
- Bosch M, et al. (2025). The effects of rigid and elastic adhesive tape on pain in musculoskeletal and sports conditions. JOSPT Open. Link Bandagem rígida e tape elástico tiveram resultados diferentes, com alta heterogeneidade entre os estudos.
- Mostafavifar M, et al. (2012). A systematic review of the effectiveness of kinesio taping for musculoskeletal injury. The Physician and Sportsmedicine. Link Inconclusivo.
- Chartered Society of Physiotherapy. Consent and physiotherapy practice. CSP professional guidance. Link