Sistema
O que é carga e por que ela importa
Essa expressão está em tudo o que fazemos. Veja o raciocínio por trás dela e até onde a ciência vai.
A carga não é a inimiga. A carga é o estímulo. Cada tecido do seu corpo é do jeito que é porque algo o puxou, e volta atrás se nada puxar. Essa ideia está na base dos quatro fases em torno dos quais criamos os produtos, então vale dizer com clareza o que ela significa e, com a mesma clareza, onde as evidências acabam.
O tecido responde à força
As células do tendão, do músculo e do osso percebem a força mecânica e respondem a ela. Esse processo tem nome, mecanotransdução, e vai do estiramento que a célula sente aos sinais que ela manda às vizinhas, até as proteínas que ela produz em resposta.1 As células do tendão mostram isso com muita clareza. Com carga bem dosada, elas depositam matriz. Paradas, elas perdem matriz.2
Uma meta-análise de estudos de exercício em adultos saudáveis mostra que a rigidez do tendão aumenta com a carga, e que esforços maiores e mais longos geram mais mudança do que os curtos e frequentes.3 Uma síntese maior, de 2022, encontrou o mesmo padrão para a rigidez, mas observou que os tendões não engrossam de forma consistente, então não espere mudança visível.4 Carga e descarga também têm tempos diferentes. Sem carga, o tecido perde rápido. Reconstruir leva muito mais tempo.5
Um problema de tendão normalmente não é um tendão inflamado. É um tecido que recebeu mais carga do que podia aguentar.
Por isso, hoje a tendinopatia é vista como uma resposta falha à carga, e não como um evento inflamatório.6 O modelo contínuo que a maioria dos profissionais usa para descrevê-la, de reativa a desorganizada e depois degenerativa, é mais um jeito de pensar do que um mecanismo comprovado, e os próprios autores já disseram isso.7,8 Citamos esse modelo porque ele explica a lógica do trabalho progressivo, não porque resolva alguma coisa.
Arraste para mudar a demanda diante de uma capacidade fixa. Nada aqui é diagnóstico. É só um jeito de ver por que a mesma sessão pesa diferente em duas pessoas.
Dois tipos de carga que muita gente confunde
A declaração de consenso do Comitê Olímpico Internacional divide a carga em externa e interna.9 A carga externa é o que você fez. Doze quilômetros, noventa minutos, quatro séries. A carga interna é o que isso custou. Frequência cardíaca, esforço percebido, como você dormiu depois. Dois atletas podem fazer a mesma carga externa e sentir cargas internas muito diferentes, e é justamente por isso que prescrever igual para o grupo todo dá errado.10
Os profissionais medem a carga interna com a percepção subjetiva de esforço da sessão, frequência cardíaca e questionários de bem-estar, e a carga externa com GPS e contagens.11 Todos eles têm limites conhecidos, e os próprios autores do consenso dizem isso.
Até onde a ciência vai
Você vai ver a razão entre carga aguda e crônica citada como se fosse questão resolvida. Não é. A ideia ficou popular depois que um artigo de 2016 defendeu que carga crônica alta protege e que picos repentinos deixam o atleta exposto.12 Desde então, vários grupos derrubaram a ideia com argumentos matemáticos e conceituais, e o título de um dos artigos diz, na prática, que é hora de descartá-la.13 Uma revisão sistemática encontrou associações inconsistentes entre esportes e métodos de cálculo.14 Não vamos te vender um número que a própria área ainda discute.
Um segundo limite importa mais para quem está escolhendo um produto. A carga de treino do corpo inteiro não é a carga sobre a estrutura específica que falha.15 Seu tornozelo não sabe quantos quilômetros você correu na semana. Ele sabe o que aconteceu com ele no quarto minuto do segundo tempo. Revisões da literatura sobre carga de treino e lesões encontram métodos heterogêneos e conclusões limitadas.16 E nenhum teste de triagem consegue prever quem vai se machucar.17 Quem diz o contrário está vendendo alguma coisa.
O que não vamos afirmar. Nada neste artigo sustenta a ideia de que a bandagem previne lesões, alivia dor, reduz inchaço ou acelera a cicatrização. Nossos produtos dão apoio mecânico e proteção da pele. Essa é uma função real, e é ela que a gente entrega.
Onde o apoio entra
Se a carga é o estímulo e a capacidade é o limite, o apoio externo é um jeito de mudar o estímulo por um tempo. Ele não aumenta a capacidade. Ele só dá uma margem de tempo.
A ideia é essa. Todo corpo trabalha com carga. A pergunta nunca é se deve receber carga, e sim quanto, com que rapidez e o que você coloca em volta enquanto a capacidade não chega lá.
Descubra em qual fase você está
Quatro fases, um sistema. Comece pela parte do corpo que mais trabalha e vamos te indicar o produto certo e o tutorial que vem com ele.
Fontes
- Khan KM, Scott A (2009). Mechanotherapy: how physical therapists’ prescription of exercise promotes tissue repair. British Journal of Sports Medicine. Link
- Wang JH-C (2006). Mechanobiology of tendon. Journal of Biomechanics. Link
- Bohm S, Mersmann F, Arampatzis A (2015). Human tendon adaptation in response to mechanical loading: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine Open. Link
- Lazarczuk SL, Maniar N, Opar DA, et al. (2022). Mechanical, material and morphological adaptations of healthy lower limb tendons to mechanical loading. Sports Medicine. Link A mudança morfológica é inconsistente.
- Magnusson SP, Kjaer M (2019). The impact of loading, unloading, ageing and injury on the human tendon. The Journal of Physiology. Link
- Magnusson SP, Langberg H, Kjaer M (2010). The pathogenesis of tendinopathy: balancing the response to loading. Nature Reviews Rheumatology. Link
- Cook JL, Purdam CR (2009). Is tendon pathology a continuum? British Journal of Sports Medicine. Link
- Cook JL, Rio E, Purdam CR, Docking SI (2016). Revisiting the continuum model of tendon pathology. British Journal of Sports Medicine. Link Os próprios autores chamam isso de modelo clínico, não de patologia comprovada.
- Soligard T, Schwellnus M, Alonso JM, et al. (2016). How much is too much? Part 1. International Olympic Committee consensus statement on load in sport and risk of injury. British Journal of Sports Medicine. Link
- Impellizzeri FM, Marcora SM, Coutts AJ (2019). Internal and external training load: 15 years on. International Journal of Sports Physiology and Performance. Link
- Bourdon PC, Cardinale M, Murray A, et al. (2017). Monitoring athlete training loads: consensus statement. International Journal of Sports Physiology and Performance. Link
- Gabbett TJ (2016). The training-injury prevention paradox: should athletes be training smarter and harder? British Journal of Sports Medicine. Link Muito contestado desde a publicação.
- Impellizzeri FM, Woodcock S, Coutts AJ, et al. (2021). What role do chronic workloads play in the acute to chronic workload ratio? Time to dismiss ACWR and its underlying theory. Sports Medicine. Link Refutação direta.
- Maupin D, Schram B, Canetti E, Orr R (2020). The relationship between acute:chronic workload ratios and injury risk in sports: a systematic review. Open Access Journal of Sports Medicine. Link Resultados inconsistentes.
- Nielsen RO, Bertelsen ML, Møller M, et al. (2018). Training load and structure-specific load: applications for sport injury causality and data analyses. British Journal of Sports Medicine. Link
- Drew MK, Finch CF (2016). The relationship between training load and injury, illness and soreness: a systematic and literature review. Sports Medicine. Link Evidências heterogêneas.
- Bahr R (2016). Why screening tests to predict injury do not work, and probably never will: a critical review. British Journal of Sports Medicine. Link